domingo, 25 de setembro de 2016

Perfis ICC: você ainda vai precisar deles



Quem nunca imprimiu uma imagem que no monitor aparecia com tonalidades de cores bacanas e no papel saiu outra cor completamente diferente? O que ocorre é que cada dispositivo possui um jeito diferente de interpretar as cores. Isso sempre foi um problema na indústria gráfica.

É aí que entram os perfis ICC. São eles os responsáveis por tornar as cores de impressão as mais fiéis possíveis ao que você vê no monitor.



Até 1993, cada fabricante é quem criava, individualmente, seus parâmetros para regulagem das cores de seus equipamentos, ou seja, cada fabricante uma configuração. Com o avanço da editoração eletrônica e o crescimento e difusão do número de diferentes hardwares e dispositivos de impressão, observou-se que nem mesmo impressoras ou monitores de uma mesma marca, ano de fabricação ou modelo, exibiam um padrão de cores exatamente idênticos. Isso vinha se tornando um problema, pois cada vez mais usuários no mundo usavam o mesmo software, porém com equipamentos diferentes e cada qual com parâmetros de cores diferentes. Isso afetava principalmente os profissionais de artes gráficas, publicidade e design. Esses profissionais precisavam de várias soluções em softwares, cada qual produzindo um resultado que não combinava corretamente com as cores utilizadas pelos equipamentos dos mais variados fabricantes. No meio dessa bagunça de cores, muitos davam preferências para fornecedores de serviços que conseguiam a façanha de ajustar seus equipamentos como um todo.

Foi assim que em 1993, algumas empresas líderes de produtos ligados à produção de imagens (entre elas a Adobe, Apple, Canon, Fuji, Kodak, Agfa, etc) criaram o consórcio ICC (International Color Consortium – Consórcio Internacional de Cores), introduzindo no mercado uma plataforma aberta e livre, com uma padronização para gerenciar as cores dos mais variados dispositivos conhecidos. Esse gerenciamento é chamado de perfil ICC.

Um perfil ICC é um arquivo de computador. Nele há uma série de especificações que descrevem a forma como o dispositivo para qual aquele perfil foi criado deve exibir, produzir ou reproduzir as cores.

Para entender melhor o que significa o perfil ICC e sua importância, imagine uma sala de reunião com gente de vários países, cada um falando um idioma. Para que todos se entendam, é preciso um tradutor simultâneo. Essa analogia serve para nos fazer compreender a importância dos perfis de cores. Eles servem como uma espécie de “tradutor” simultâneo de cores para vários dispositivos.




Essa "tradução" é necessária porque no mundo existem várias formas para se gerar cores. As duas formas mais conhecidas é com a luz ou senão com pigmentos, conhecidas como síntese aditiva e subtrativa respectivamente. Portanto, quando se fala de cor, é necessário distinguir que tipo de cor estamos nos referindo, se é aquela obtida aditivamente (por meio da emissão de luz) ou a cor obtida subtrativamente (por meio de pigmentos).


Um pouco sobre teoria da cor 


Síntese aditiva


A síntese aditiva possui como cores primárias o vermelho, verde e o azul (o famoso padrão RGB - do inglês Red, Green e Blue). São as mesmas cores que nossos olhos “captam". A partir dessas 3 cores primárias todas as outras são formadas.

Na síntese aditiva, a mistura de duas cores sempre resultará numa cor mais "luminosa". Na mistura das 3 cores primárias obtém-se o branco. É por isso que este sistema chama-se aditivo. As cores se formam através da soma de luz e o resultado da soma de todas as cores é o branco.

Síntese subtrativa

 



Enquanto na síntese aditiva vemos a luz, na síntese subtrativa vemos o reflexo da luz sobre um objeto. Isso muda tudo! Tudo mesmo. Para início de conversa, as cores primárias da síntese subtrativa são o ciano, o magenta e o amarelo (ou CMY, do inglês Cian, Magenta e Yellow). Essas cores primárias  trabalham como filtros. Elas absorvem a luz branca e as cores que enxergamos são as ondas luminosas que não foram absorvidas.

Quando o ciano, o magenta e o amarelo são sobrepostos, eles geram uma cor de tonalidade muito escura, pois nesse caso quase a totalidade das ondas luminosas são absorvidas (subtraídas).

O desafio da cor preta na síntese subtrativa 

 


O sistema subtrativo é o modelo usado para impressão. Nesse sistema baseado em pigmentos, obter a cor preta através da mistura do ciano, magenta e amarelo deveria dar certo, teoricamente falando. Mas na prática isso não ocorre. Um dos problemas é a impossibilidade de se fabricar pigmentos absolutamente puros dessas cores. Além de possuir micropartículas que interferem na absorção das cores, os pigmentos não conseguem refletir com a mesma intensidade toda a luz que recebem e por isso são mais fracos. Isso permite que pequenas porções do espectro de cores escapem. Por causa disso, ao sobrepor as cores primárias da síntese subtrativa - o ciano, o magenta e o amarelo - o que a gente obtém de verdade é um preto meio lavado, com uma tonalidade cinza muito escuro, ligeiramente puxada para o marrom. Pode-se dizer que é quase preto, mas nitidamente diferente de uma tinta puramente preta.

Para se obter precisão maior na impressão de itens coloridos, diminuir a sobrecarga de tinta no papel, ganhar uma matiz mais pura de cores, muito mais nitidez nas imagens e também por uma questão econômica - uma vez que seria necessário sempre usar três tintas para se chegar ao preto - foi incorporado o pigmento preto no sistema subtrativo - o K do CMYK.

Essa mudança viabilizou as primeiras impressões coloridas em escala comercial. O primeiro jornal a publicar uma fotografia colorida foi o tablóide britânico Dailly Mirror, em 1904. No Brasil, em 1907, o jornal "A Gazeta Carioca" se tornou o primeiro a trazer fotos coloridas. Uma revolução para a época.


A armadilha das cores CMYK

 


A combinação das quatro cores CMYK podem reproduzir toda a principal gama de cores do espectro visível, porém muito longe de representar as cores do espectro RGB e mais longe ainda de representar todas as cores que enxergamos.

Isso significa que toda essa devoção quase religiosa que há na conversão e visualização de imagens em CMYK é algo absolutamente enganoso. Pode causar resultados trágicos quando todos os dispositivos envolvidos em seu processo de criação não falarem o "mesmo idioma".

A grande verdade é que a conversão em CMYK é algo que deveria ser feita apenas no momento da impressão e nunca durante a edição do arquivo já que, ao visualizarmos CMYK num monitor, estamos lidando com uma conversão ilusória e sem sentido. É apenas uma simulação. Jamais será possível obter fielmente cores do sistema subtrativo usando-se a síntese aditiva. Uma é tinta, a outra é luz. Não dá! São dois sistemas totalmente diferentes.

Quando você se baseia no gamut RGB com 256x256x256 cores, a renderização para CMY transforma tudo em 100x100x100. Por fim entra o K (preto) que é uma cor chave, sendo usada nas impressoras como substituição dos valores máximos do CMY. O que sobra são 1.000.000 de cores possivelmente impressas, contra 16.777.216 de cores visíveis do RGB.

Qual a solução então? A solução nº 1 é usar um perfil ICC. A solução nº 2 é que se deveria sempre trabalhar com as cores no modo RGB. Ao lidar com CMYK no monitor você está lidando com uma simulação. Aliás, quando no software de edição você converte uma imagem RGB para o modo CMYK, você está destruindo boa parte das informações das cores originais dessa imagem. Isso porque seu software de edição precisa referenciar cada pixel RGB dessa imagem para novos valores que se encaixem dentro da escala CMYK. É uma mudança drástica! Você pega uma foto numa escala que possui 16 milhões de cores e a transforma para outra escala com apenas 1 milhão. Entretanto, quando você lida com RGB, você tem uma visualização real e este é o melhor meio de se referenciar a cores no computador. O CMYK é importante sim, mas ele só é essencial na hora de separar as cores em chapas diferentes para a impressão offset. O resto é pura ilusão.

Mas se o espaço RGB possui muito mais cores, sendo boa parte não reproduzíveis pela escala CMYK, como ter uma noção correta das cores que sairão impressas?


É para isso servem os perfis ICC. Você terá que associar um perfil de cores ao seu trabalho.

Distribuições Linux como o Ubuntu já oferecem um ótimo conjunto de perfis chamado icc-profiles e pode ser instalado a partir do Ubuntu Software ou pelo terminal com o comando 'sudo apt-get install icc-profiles'.

A Adobe possui um grupo de perfis para impressão CMYK com uma licença bem generosa: livre de royalties para utilizar, reproduzir e distribuir. Isso além de facilitar muito a vida de todo designer, não há como negar que a Adobe é uma gigante do mercado para impressão comercial e suas ferramentas não devem ser menosprezadas. E o que é melhor: você pode usar essa ferramenta dentro de um software como o Scribus.

Também é possível obter perfis de cores da Colourmanagement ou da ECI. Isso é válido para usuários Linux, Windows ou Mac OS X.

Obtendo perfis ICC da Adobe


Se você possui pretensões de enviar arquivos do Scribus (em PDF) para impressão comercial, obter os perfis ICC da Adobe já é um bom começo. São 8 perfis de cores RGB e 14 CMYK, incluindo padrões usados nos Estados Unidos, União Européia e Japão.

Pegue os perfis da Adobe AQUI e instale conforme orientações abaixo.

Copie os arquivos .icc que estão dentro das pastas "CMYK" e "RGB" para as seguinte pastas:

Linux:

Copie os perfis para a pasta /usr/share/color/icc.

Windows:

Copie os perfis para a pasta WINDOWS/system32/spool/drivers/color.

Mac OS X:

Copie os perfis para a pasta /Library/ColorSync/Profiles ou para a pasta /Users/[nome do usuário]/Library/ColorSync/Profiles.


Configurando o perfil ICC


Para configurar um perfil ICC, o correto seria selecionar o perfil CMYK adequado que melhor correspondesse às condições de impressão do trabalho gráfico que você fosse produzir. Num mundo perfeito deveria ser assim. Mas é quase impossível obter a informação de qual perfil usar. Muitas gráficas não possuem um profissional qualificado para responder sobre isso e outras lhe diriam para não usar perfil nenhum, basta converter tudo para CMYK e pronto.

Se você não faz ideia de qual perfil usar, o que é frequentemente o caso, uma boa alternativa é usar o padrão de perfis descritos a seguir.

Para impressões em papeis revestidos como o couchê, use o Coated FOGRA39. Se a saída de impressão for em papéis não revestidos como o papel offset, use o perfil Uncoated FOGRA29. Para impressão em papel jornal, use o perfil ISOnewspaper26v4.


Veja abaixo como configurar os perfis no Gimp, Inkscape e no Scribus. Para fins ilustrativos nos exemplos abaixo está indicado o FOGRA39 na saída CMYK. Você deverá alterá-lo para cada tipo de papel, conforme explicado.

Gimp


Vá ao menu Editar, Preferências.

No painel esquerdo, procure pelo item "Gerenciamento de cores".

Configure o Gimp conforme a imagem abaixo e clique em "Ok" (para melhor visualização, clique na imagem para ampliá-la).



Inkscape


Vá ao menu Editar, Preferências.

No painel esquerdo, clique na seta de "Input/Output" para abrir o sub grupo de opções. Selecione o item "Gerenciamento de Cor".

Configure o Inkscape conforme imagem abaixo (para melhor visualização, clique na imagem para ampliá-la).




Scribus

 

Vá ao menu Arquivo, Preferências.

No painel esquerdo, procure pelo item "Gestão de Cor".

Configure o Scribus conforme imagem abaixo e clique em "Aplicar" (para melhor visualização, clique na imagem para ampliá-la).


Agora retorne ao painel esquerdo e procure o item "Exportação de PDF".

Na aba "Cor" selecione a intenção de saída para "Impressora", como mostra a imagem abaixo e clique em "Ok" (para melhor visualização, clique na imagem para ampliá-la).



Fazendo um rápido resumo:

A finalidade de renderização deve ser mantida em Relativa Colorimétrica. Dessa forma, quando você fizer a conversão de imagens que estão em RGB para imagens CMYK, haverá uma relação colorimétrica, ou seja, os softwares encontrarão a cor mais próxima da escala CMYK para a cor RGB que você está usando.

RGB: a melhor opção pra trabalhar com peças que serão impressas é o Adobe RGB 1998. Ele tem um dos espaços de cores mais amplos, conseguindo reproduzir fielmente mais cores. Para a web, o ideal é o sRGB. Trata-se de um perfil mais enxuto, com menos cores, porém específico pra web.

CMYK: Para visualizar uma imagem o mais próxima possível do resultado da impressão em papel couché, é interessante usar como padrão o perfil CoatedFOGRA39 (ISO 12647-2:2004). Ele foi produzido a partir dos padrões genéricos mais utilizados no Brasil (papel couché, tintas em escala Europa e impressão off-set).

Uma última observação importante: Se a gráfica possuir algum manual instruindo o uso de um determinado perfil, esqueça as indicações dadas neste artigo e use o ICC indicado pela gráfica.

Espero que este artigo lhe seja útil! Até a próxima!





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Um comentário:

  1. Olá muito bom o seu blog também sou oldschool porém não tão old :-), trabalhei numa gráfica rápida onde predomina Corel Draw e Adobe Photoshop mas passei como freelancer a utilizar o Inkscape que a cada dia me surpreende mais e também o Gimp que to lutando para fazer recorte de cabelo tão bom e rápido quanto no Photoshop.A minha dúvida é um pouco besta mas deve ajudar muita gente, gostaria de saber se após ter configurado os perfis desejados como exemplo no Inkscape ele automaticamente estará incorporado no arquivo seja num jpg, png, svg ou pdf? Se sim será que há uma forma de nos certificarmos que ele está inserido no arquivo?

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